Cenas do cotidiano: eu, Londres e a questão racial

black-and-white-hands
Foto: http://opinionessoftheworld.com
Certo dia (há bastante tempo, por sinal), estava eu a caminho de um churrasco na casa de amigos, quando me deparei com uma situação, no mínimo, inusitada dentro do ônibus. Era uma manhã ensolarada e tranquila de um domingo qualquer e eu, ali, sentada no ônibus 77, saindo de Vauxhall indo em direção a Tooting, bairros do sudoeste de Londres. Pra quem não sabe, esses bairros assim como Camberwell, Brixton, Peckham e outros tantos, recebem muitos imigrantes e tem uma percentagem de moradores negros bastante significativa. Então, como era de se esperar, naquela manhã, o ônibus 77 estava 90% ocupado por pessoas negras.
Algumas paradas depois do ponto em que eu subi, mais uma família negra entrou no ônibus e tranquilamente foi se acomodando. Mãe, bebê, tias, três ou quatro crianças e a avó. Vieram todos para o fundo do ônibus, onde eu estava sentada, menos a avó e uma das tias que ficaram nos assentos reservados na frente. A mãe, colocou o carrinho do bebê atravessado, ocupando os dois espaços destinados para carrinhos e ficou ali em pé, se dividindo entre observar as crianças no fundo do ônibus, ficar de olho no bebê e conversar com a tia e a avó que estavam na frente.
O princípio da confusão - Estava tudo correndo tranquilamente, até que uma segunda mãe entrou no ônibus. Ela veio com seu carrinho de bebê, mas não havia espaço, pois o outro carrinho estava atravessado nas duas vagas e a primeira mãe estava distraída conversando com uma das tias no fundo do ônibus. Ela sequer notou que, na tentativa de arranjar espaço, a segunda mãe estava sacodindo o carrinho dela (detalhe: com o bebê dentro). Incomodada com a cena, uma loirinha (que não tinha nada a ver no jogo do bicho) chamou a primeira mãe, para que ela removesse o carrinho dela, pois estava atrapalhando a outra passageira. Erro fatal número 1!
Como é que é?, perguntou a mãe. Nesse momento, a segunda mãe (que, diga-se de passagem, também era negra) parou de sacolejar o carrinho, pois se deu conta de que havia um bebê dentro, e ficou ali, com a maior cara de coitada, esperando a primeira mãe se resolver com a loirinha, que a essa altura tentava se explicar que só queria ajudar. Mas, a primeira mãe não quis nem saber e soltou os cachorros em cima da garota com coisas do tipo: quem você pensa que é pra me mandar tirar meu bebê dali, tá pensando que tá falando com quem e por aí vai.
E a confusão só aumentando - A uma certa altura, toda a família já estava engajada no bate-boca, inclusive as gurias (de 3 a 6 anos de idade) que estavam no banco de traz e ficavam xingando a loira e mandando ela se F*!
Apesar de acuada, a garota não se intimidava e tentava argumentar que a mãe não tinha direito de ocupar as duas vagas de carrinho. Erro fatal número 2! A mãe só deve ter ouvido a parte de “você não tem direito”, pois foi a loucura. Eu sou cidadã britânica, tanto quanto qualquer outro e tenho direito sim – esbravejava a mulher, enquanto gritava aos quatro ventos que pagava impostos e tinha passaporte britânico etc.
O burburinho só aumentava.  Pra minha completa surpresa (e raiva), a segunda mãe, que foi quem de certa forma desencadeou a briga, deu uma de João-sem-braço. Sim, senhoras e senhores, ela simplesmente disse que não sabia porque a loirinha estava reclamando, pois nem ela mesma reclamou e só estava movendo o carrinho, bem devagar (não foi devagar não, que eu vi!), por estar precisando estacionar o dela. Foi o suficiente para selar o pacto. As duas mães apertaram as mãos e a primeira mãe ainda soltou algo do tipo: “– Eu sei irmã! O problema é essa filha de 'sei lá o que' achando que pode falar comigo desse jeito...” e por aí foi.
Todos contra uma – Ainda nem tinha me dado conta de que a avó havia entrado no bate boca, só vi quando a tia que estava com ela se levantou e colocou o dedo na cara da loira pra que ela se calasse em respeito a avó ou iria apanhar. Você acha mesmo que a garota se calou? Nunca. E ficou mais zangada ainda quando a segunda mãe entrou na briga. A menina estava inconformada, pois se meteu naquela confusão por tentar ajudar a segunda mãe que, aquela altura também estava na briga, mas contra a loira e do lado da “sister”.
Enfim, foram longos minutos de gritaria (literalmente) dentro do ônibus. Era a avó e a tia gritando da frente, as duas mães berrando da área reservada e um monte de criança falando palavrão dos fundos. Enquanto isso, a loirinha combatia sozinha, mas sem se intimidar. Já quanto a mim, tentava me enterrar na minha cadeira, com medo até de olhar para elas e apavorada com remota possibilidade de a minha morenice passar batida. Vai que no calor da emoção elas me enquadrassem como parte do “time da loira”? Fiquei quieta.
O ápice - Graças a Deus, o ponto da loira chegou e ela se levantou para descer. Foram segundos tensos, pois pensei que elas iriam partir para parte física do combate, mas não. Quer dizer, quase que não, pois para minha perplexidade, quando a loira ia descendo do ônibus, a tia chutou a garota pra fora do veículo! Isso mesmo! Meteu o pé no traseiro da loira que quase se estatelou na calçada. A cena foi chocante, só não superou meu espanto com a reação geral dentro do ônibus: APLAUSOS!
Foi uma cena surreal. Depois de ter agredido aquela garota, a tia saiu distribuindo "hi-5" (ou “toca aqui”) para a família e foi aplaudida pelos demais passageiros (em sua maioria negros).
Relação água e óleo - Mas porque eu estou contando essa história agora? É que não sei vocês, mas eu percebo que aqui em Londres existe uma espécie de racismo as avessas. Não quero polemizar com minha opinião, mas achei muito triste a cena que vi naquele domingo no ônibus, principalmente porque ela envolveu crianças. Aquelas gurias com idades entre 3 a 6 anos irão reproduzir o mesmo comportamento de suas mães e, num futuro próximo, serão elas quem estarão agredindo pessoas por aí, sem sequer tentar entender o que se passa. E, cá entre nós, não é por aí que vamos conseguir combater o racismo.
Eu sou afrodescendente e defendo medidas em favor dos negros – o que não inclui as cotas nas universidades, sorry! (Mas isso é assunto pra outro post). Tento inclusive interferir no sentido de coibir piadinhas bestas envolvendo negros, já tendo até mesmo discutido com o namorado por ele ter rido de uma matéria na TV mostrando a torcida de um time jogando banana para um jogador de futebol negro. “Tá rindo de que, meu filho? Isso é ridículo!”. Pois é! Acho que devemos mesmo combater desde pequenas atitudes que tentam menosprezar os negros, mas daí a nutrir essa atitude anti-brancos já são outros quinhentos.
Mais alguns casos que vi – Atualmente, na minha turma do MBA onde tenho muitos colegas negros, percebo que é nítida a diferença do respeito que eles tem pelo nosso professor do Gana (negro) e o inglês (branco). Essa cortesia seletiva chega a ser constrangedora!
Certo dia, o professor inglês pediu para que uma menina da Nigéria desligasse o celular, mas ela simplesmente olhou para ele por uns segundos, sacodiu a cabeça negativamente e continuou usando o telefone, na cara do professor. Uma outra, também negra, se levantou no meio de uma aula, sem a menor cerimônia, e foi saindo até que esse mesmo professor perguntou: “– Com licença, eu ainda não acabei a aula, posso saber onde você está indo?”. Ela nem pensou duas vezes e disse que estava indo embora, porque? O professor ainda disse que seria educado da parte dela pelo menos falar com ele antes, mas ela sequer se deu ao trabalho de dizer mais alguma coisa. Soltou um “hunf”, virou e saiu. O professor não teve outra opção a não ser retomar a aula, humilhado.
Contrastando com os episódios acima, em diversas outras situações, já vi o professor ganês interpelar os alunos e eles se desculparem e até voltarem para a cadeira quando esse professor solta um curto e grosso: “– Sente-se, eu ainda não acabei!”. É nítida a dificuldade que eles tem de respeitar o professor branco. Semelhante aquela situação das mães no ônibus, acho que meus colegas de classe se sentem subjugados caso permitam que um branco os chame a atenção. Sei lá, acho que por aqui o simples fato de um branco interpelar um negro é visto como uma forma de estabelecer uma “superioridade” que por anos e anos foi imposta sobre os negros.
A raiz do atual problema – Porém, o que eu noto é que na ânsia de se impor, muitas vezes vejo negros perderem a razão, com atitudes extremamente defensivas mesmo quando não existe nada contra o que se defender. O resultado de tal postura arredia é um racismo as avessas que acaba não combatendo nada, mas sim gerando mais e mais intolerância de ambas as partes, complicando ainda mais as questões ligadas as diferenças raciais neste país.
Como já andei ouvindo por aí, alguns podem até argumentar que anos e anos de maus tratos e pura discriminação acabaram gerando essa postura agressiva e, por isso, os negros não teriam outra alternativa a não ser se impor no grito, na marra e na força se for preciso. Mas eu, continuo discordando. Não é com atitudes violentas e postura arredia a tudo e todos que vamos conseguir mudar alguma coisa. Violência física jamais deveria ser uma opção e, se é pra bater boca na rua que, pelo menos, seja com alguém que de fato fez algo de errado. Intolerância só gera mais intolerância e se prosseguirmos assim, os conflitos originados por questões raciais estão longe, muito longe ter um fim.
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PS: Espero não ter ofendido ninguém com esse post. Por ser um assunto delicado, li e reli o texto inúmeras vezes, tendo cuidado para não me expressar mal. Só queria compartilhar aqui minhas impressões sobre o assunto, através de exemplos reais que vi e vejo por ai. E vocês, o que acham? Já presenciaram alguma cena que chamou a atenção de vocês?

11 comments

  1. Liza 17 July, 2013 at 11:30 Reply

    Assunto polemico esse viu!? Eu sendo negra nunca sofri racismo de nenhuma forma por aqui, pelo contrario. As vezes acho até que sou tratada com muita delicadeza pra que o que os ingleses falem não soe comi racismo.
    Já Brixton e Tooting é muitos bairros de east london eu tenho medo (medo mesmo, não me sinto segura) não por estar cheios de negros mas sim por ter muitas minorias ignorantes é delas que eu tenho medo. 8 anos morando em Londres eu fui em Brixton no máximo 5 vezes no mercadinho português. Dessas 5 vezes uma eu vi briga e na outra a rua estava fechada porque alguém tinha acabado de ser esfaqueado. Depois disso nunca mesmo voltei…

  2. Karine Porto 17 July, 2013 at 11:51 Reply

    Vauxhall (onde moro), assim com seus vizinhos Brixton e Stockwell, tem fama de perigoso, mas nunca tive problema. Os únicos incidentes que recordo nesses 4 anos nas redondezas foram uma bicicleta roubada do jardim de uma vizinha e uma menina que teve a bolsa roubada por um carinha numa bicicleta. Confesso que a noite (especialmente) ando alerta, mas no geral, acho aqui tranquilo.
    Minha intenção quando mencionei esses bairros e a quantidade de negros nessa região não foi traçar nenhum relação entre quantidade de negros e violência. Na verdade, queria apenas descrever o contexto em que aquele episódio no ônibus aconteceu (no qual a loira era minoria) e mostrar meu espanto com a reação dos demais envolvidos ou não na discussão. Espero não ter me expressado mal! 😉

  3. Liza 17 July, 2013 at 12:59 Reply

    Gata eu entendi direitinho, não achei em nenhum momento que tu foi racista não. Vauxall é cheio de portugueses ora pois pois 😉

    Beijo

  4. Fabiana Pereira 20 July, 2013 at 22:42 Reply

    oi, Bom eu te entendo porem entendo eles aqui pois é uma historia de amor e odio porque a Englaterra tirou muita coisa da africa, costumo dizer p meus amigos africanos que é um odio enraizado.Sou negra vivo em OVAL e percebo q eles abusam um pouco porem a Englaterra ta colhendo o q plantou. Se vc tiver contato com os africanos de perto vai saber quanta dor envolve em relação a cor.Os relatos são muito fortes. Apesar de n gostar dos Portugueses sabe q sinto alivio por ter a chance de nascer no Brasil. Pois la todos somos brasileiros e n precisamos dar detalhe de qual parte da Africa viemos como aqui.

  5. Karine Porto 21 July, 2013 at 10:26 Reply

    Pois é, Fabiana! Consigo ver o seu ponto e sei que a raiz do problema é muito mais profunda. Eu só acho que complicado demais essa agressividade. Na minha cabeça, essa troca de hostilidade só piora as coisas. É complicado…

  6. Anonymous 4 November, 2013 at 15:44 Reply

    COLONIZARAM A AFRICA, AGORA QUE AGUENTEM… OUTROS PAÍSES EUROPEUS REAGIRIAM DE FORMA DIFERENTE(OS QUE NÃO COLONIZARAM PAÍSES AFRICANOS)

  7. Vanessa 24 March, 2014 at 02:25 Reply

    Espera não ter ofendido ninguém, mas ofendeu. Me admira você, uma estudando de MBA tendo esse tipo de pensamento. Tenho uma novidade para você: Você não é melhor do que as pessoas que criticou no post, pois está tendo um sentimento segregacionista como elas. E só para lembrar: Você não é uma cidadã nascida na Inglaterra, então para eles pouco importa a sua opinião até porque isso não é de sua competência não sendo cidadã local.
    Por pessoas como você que esse mundo não vai pra frente. Me da pena ver pessoas estudadas compartilhando esse tipo de postagem na internet. Aprenda a relacionar os fatos atuais com fatos históricos e serás mais bem informada

    • karineporto 25 March, 2014 at 11:52 Reply

      Oi, Vanessa! Primeiramente, mil desculpas (de coração) por ter te ofendido de alguma maneira, mas, honestamente, não acho que discordar da violência aplicada no episódio que contei seja ter pensamento segregacionista. Concordo com você apenas quando diz que minha opinião não é relevante a nenhum inglês e, por isso mesmo, escrevo em português para que brasileiros que tenham alguma curiosidade sobre a vida na Inglaterra possam ver, através das minhas experiências, como é o dia-a-dia por aqui. Não sei se você notou, mas no post reconheço que a raiz do problema é mais profunda (portanto, relaciono sim os fatos atuais com fatos históricos), porém isso não me impede de achar um absurdo uma mulher ser chutada de um ônibus e ser aplaudida por isso. Enfim, nunca foi minha intenção gerar polêmica, mas ao tratar de um assunto delicado já estava preparada para algum debate. Obrigada por dividir sua opinião aqui no blog.

  8. Edson 16 October, 2015 at 00:00 Reply

    Parabéns!!! Fico feliz em ler um post como esse e notar que não sou apenas eu que penso que nem você. Não liga para quem te chamou de racista ou coisa do tipo. Só quem já morou fora do Brasil, especialmente na Europa, sabe do que estamos falando. Morei alguns anos na Inglaterra, em Londres, e os bairros que passei são considerados bairros de maioria negra, como Camberwell e Bermonsey. Cara… algo que me chamou a atenção e eu acho triste, ridículo, é o fato dos negros ingleses, ou os que moram lá ha um ou dois anos, vindos de outros países, apontarem o dedo na cara de qualquer um, xingar, agredir fisicamente e você não poder fazer nada porque se fizer corre o risco de ser deportado, preso ou responder processo criminal. Fala sério. Eu sofri calado muitas vezes. Pois nós, latino americanos, estamos abaixo dos brancos e dos negros (na visão dos negros ingleses). Tipo… somos o lixo do lixo. Um bando de babacas isso sim. Os brancos ingleses sempre cordiais, e os negros sempre me trataram mal ou foram rudes. LAMENTÁVEL!!! Morava em bairros de maioria negra, em sua grande maioria caribenha e putz… foda!! Muito complicado lidar com eles. Parecia mais uma máfia, onde eles podem tudo e mesmo se fizerem coisas erradas ninguém fala nada, e ainda apoia o “irmão”. Nem gosto de lembrar. Outro bairro barra pesada é Elephant Castle. Passava todo dia por volta das 2h00 da manhã ali, e puta que pariu, o que eu já vi de briga dentro do ônibus, discussão, gangues brigando e tudo mais não é brincadeira. Mas… é isso. Parabéns pelo texto, a vida de quem turista em Londres, e a vida de quem mora, são realidades diferentes. Espero que um dia todos sejam tratados igualmente.

    • karineporto 17 October, 2015 at 11:40 Reply

      Oi Edson! Obrigada por passar aqui e deixar seu comentário, mas vamos tomar cuidado com generalizações, né? Não podemos colocar etiquetar nas pessoas. Dizer algo do tipo “brancos ingleses sempre cordiais, e os negros sempre me trataram mal ou foram rudes” é tão inaceitável quanto o comportamento da senhora do texto. Existem pessoas grossas e pessoas educadas em todo lugar, e isso independe da cor da pele. Quando escrevi esse texto, minha intenção era exatamente fazer com que as pessoas refletissem sobre pre-conceitos. Vi na agressividade da senhora negra para com a moça branca (que tentava ajuda-la) um problema grave, uma atitude defensiva cega que impossibilitou qualquer diálogo e terminou em agressão. Se aquela senhora não tivesse uma ideia preconceituosa de que todos os brancos menosprezam os negros, ela teria entendido que a moça apenas a avisou de que o carrinho de bebê dela estava no caminho.
      Sim, o racismo ainda é uma triste realidade, mas minha teoria é que apenas com cordialidade de todos os lados (brancos, negros, latinos, asiáticos etc) é que poderemos fazer algo para mudar isso.
      Fico triste em saber que você teve problemas com INDIVÍDUOS idiotas, mas não vamos cair no erro da generalização, ok? Espero que muito além da lembrança das experiências ruins, Londres também tenha deixado meio mundo de boas memórias! 🙂

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